Vinhos do terroir nordestino brilham na ProWine São Paulo 2025

Por Paula Torci


Por: Redação Terroir NE
Publicado em: 09/12/2025
Vinhos do terroir nordestino brilham na ProWine São Paulo 2025

Por Paula Torci

Maior feira de vinhos e destilados da América Latina, a ProWine São Paulo confirmou em 2025 seu papel como termômetro do mercado nacional e vitrine para o mundo. Foram mais de 15 mil visitantes, 1.500 marcas expositoras vindas de 36 países e um recorde de 227 marcas brasileiras — crescimento de 30% em relação ao ano passado. Em um cenário de expansão do consumo e da produção de vinhos finos no país, a presença do Nordeste ganhou contornos de protagonista.

O avanço do Brasil na ProWine espelha o que se vê nas gôndolas e nas cartas: os rótulos nacionais ganham espaço, prestígio e curiosidade do consumidor. Se o “Brasil” fosse considerado um país de origem, já seria hoje o segundo mais consumido no mercado interno, atrás apenas do Chile. Em paralelo, a produção de vinhos finos cresce, diversifica-se e ocupa novas latitudes, um movimento que abre caminho para o protagonismo nordestino.

Nordeste: quantidade, qualidade e identidade

O Nordeste cresceu em número de projetos e, sobretudo, em qualidade. A região, que venceu desafios climáticos com tecnologia, manejo rigoroso e leitura de terroir, consolidou-se como o segundo pólo vitivinícola do país, atrás do Rio Grande do Sul, respondendo por cerca de 15% da produção nacional, segundo a ProWine. O motor desse avanço é o Vale do São Francisco (PE/BA): às margens do Velho Chico, em meio à caatinga, o clima permite colheitas ao longo de todo o ano e sustenta uma viticultura de precisão que concentra a maior parte do volume e das inovações do Nordeste.

“Além de especiais, somos uma potência nacional: atualmente, as empresas da região processam cerca de 70 milhões de toneladas de uvas para produção de vinhos finos e de mesa tranquilos, frisantes e espumantes; sucos e outros derivados”, afirma Rodrigo Fabian, enólogo do Grupo Verano Brasil e diretor executivo do VinhoVASF (Instituto do Vinho do Vale do São Francisco).

O avanço técnico veio acompanhado de reconhecimento formal. O Nordeste obteve a primeira Indicação Geográfica brasileira para vinhos tropicais: a Indicação de Procedência Vale do São Francisco (IP-VSF), que protege e valoriza os melhores vinhos e espumantes do território. É a primeira IG do país fora da região Sul a abranger vinhos finos e espumantes em zonas tropicais e a integrar municípios de dois estados: Lagoa Grande, Petrolina e Santa Maria da Boa Vista (PE), além de Casa Nova e Curaçá (BA). O selo chancela uma identidade de clima, solo e práticas que o público passou a identificar na taça: fruta limpa, acidez bem conduzida, espumantes macios e leves.

Embora o Vale do São Francisco concentre a maior parte da produção, o mapa nordestino se amplia com projetos em Garanhuns (PE), Chapada Diamantina (BA) e em estados historicamente distantes do vinho, como a Paraíba. Dos nove estados nordestinos, sete já contam com vinícolas ativas de vinhos finos (a partir de uvas europeias); por ora, Piauí e Maranhão são as exceções. O recado ao mercado é claro: há diversidade de altitudes, solos e propostas enológicas suficientes para manter o interesse do consumidor e da crítica.

ProWine 2025: presença marcante e lançamentos

Não por acaso, as vinícolas do Nordeste foram destaque na ProWine São Paulo 2025, tanto em estandes próprios quanto em espaços coletivos. O Instituto do Vinho do Vale do São Francisco levou um estande charmoso, moderno e bem localizado, dividido entre casas de peso como Rio Sol, Grupo Verano Brasil (com as marcas Garziera e Rio Valley) e Botticelli, todas com lançamentos e conteúdos técnicos que atraíram público e mídia especializada.

Entre os lançamentos, chamou atenção a nova linha ultra-premium Resiliente, da Garziera, em homenagem a Jorge Garziera — gaúcho que levou seu sonho para o Sertão e construiu um legado no Vale. A Vinícola Mello, projeto familiar a 900 metros de altitude em Garanhuns, estreou com estande perto da entrada da feira e deixou os visitantes agradavelmente surpresos com a qualidade dos vinhos apresentados, como relatou o proprietário, Carlos Mello. A UVVA, referência da Chapada Diamantina (BA), optou por um espaço mais contido que o grande estande solo do ano passado, mas manteve lotação constante apresentando quatro de seus vinhos finos. E a Rio Valley, além de integrar o coletivo do Vale, apresentou um espaço próprio para seus rótulos de perfil fresco e frutado; o frisante foi um dos sucessos da feira — leve, refrescante e levemente adocicado, afinado com o paladar de dias quentes e celebrações.

“A ProWine São Paulo reúne sommeliers, compradores, négociants, representantes de supermercados e comunicadores de toda a América Latina em um só lugar. Estar em contato com esses profissionais é essencial para levar nossos produtos ao mercado, então acredito que a participação na ProWine é vital e deve compor a estratégia comercial de qualquer produtor que deseje chegar a novos públicos”, completa Rodrigo Fabian.

Por fim, o impulso produtivo caminha junto ao enoturismo. Com paisagens singulares e céu aberto quase permanente, o Nordeste oferece uma experiência que dialoga com outros destinos de clima ensolarado nas Américas, como Mendoza, Salta e Atacama. “Com suas paisagens deslumbrantes e um clima perfeito, o Nordeste vai continuar encantando e conquistando novos fãs tanto aqui quanto lá fora. Essa transformação não só impulsiona a produção de vinho, mas também valoriza o terroir único da região, tornando-a um destino obrigatório para os amantes de vinho e boa comida”, afirma a diretora da ProWine São Paulo, Malu Sevieri.

Medalha que muda conversas

A linha de espumantes Maraví, projeto do Vale do São Francisco fruto de joint venture entre o Grupo Miolo e o Grupo Wine Cantu, cravou um marco simbólico ao conquistar com seu Brut Rosé medalha de ouro no Concurso do Espumante Brasileiro 2025, em degustação às cegas com rótulos de todo o país, superando inclusive exemplares da Serra Gaúcha. O feito repercutiu na feira: “A participação da linha Maraví na ProWine foi superpositiva. Depois da medalha de ouro, cresceu muito o fluxo de pessoas passando pelo estande para conhecer os espumantes. O estande do Grupo Wine Cantu recebeu cerca de 3.500 visitantes nos três dias, uma ótima oportunidade para apresentar a marca, conversar com o público e reforçar o quanto vem se destacando”, relata Igor Coronado, coordenador de Marketing do Grupo Wine Cantu. Para Cibele Siqueira, embaixadora de Marcas Autorais do grupo, “a produção dos espumantes Maraví foi uma aposta ousada, sustentada por estudos de mercado e investimento significativo — e essa aposta vem se confirmando na prática”.

Por que isso importa

A ProWine 2025 cristalizou uma virada de chave: o vinho brasileiro amplia sua relevância e, dentro dele, o Nordeste assume papel estratégico ao combinar escala, inovação e identidade. Do reconhecimento de origem à conquista em concursos, passando por lançamentos ambiciosos e estandes disputados, a região mostra que não é exceção exótica — é parte indissociável do novo mapa do vinho brasileiro. E esse mapa, cada vez mais, aponta para o sol do Nordeste.