A Bahia se destaca na produção de chocolates premiados nacional e internacionalmente
Por: Redação Terroir NE
Publicado em: 09/12/2025
A Bahia se destaca na produção de chocolates premiados nacional e internacionalmente
Consumido desde 1500 a.C. pelos olmecas, civilização que habitou o atual México, em forma de bebida amarga, o chocolate começou a receber especiarias como mel e pimenta com os maias e astecas. Esses povos o consideravam sagrado, utilizavam-no em rituais e até como moeda de troca. O chocolate chegou à Europa apenas no século XVI, onde passou a ser adoçado e apreciado pela nobreza e, com o avanço da industrialização e das técnicas culinárias, ganhou leite na composição e assumiu a forma sólida que conhecemos hoje.
Produzido a partir da amêndoa do cacau — fruto do cacaueiro, árvore nativa das florestas tropicais das bacias dos rios Amazonas e Orinoco — o chocolate, assim como o vinho, é consumido e celebrado no mundo inteiro. E, embora a Europa concentre as marcas mais conhecidas, a matéria-prima é majoritariamente proveniente da América do Sul e Central. O Brasil, que possui condições ideais para o cultivo do cacau, ocupa atualmente o sexto lugar entre os maiores produtores mundiais, com 265 mil toneladas por ano, segundo dados de 2025 do Ministério do Turismo. E nossos chocolates vêm conquistando cada vez mais paladares, dentro e fora do país.
De acordo com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), as exportações de chocolate brasileiro alcançaram, em 2022, o segundo melhor resultado em duas décadas, com crescimento de 12,7% em relação ao ano anterior. E boa parte desse sucesso vem do Nordeste, especialmente da Bahia. “O estado é o principal produtor de cacau do país e tem se destacado na produção de amêndoas finas, provenientes de variedades selecionadas e cultivadas em sistemas agroflorestais sustentáveis, como o cacau cabruca”, ressaltou o pesquisador e Coordenador do Centro Tecnológico Agropecuário do Estado da Bahia, Paulo Mesquita.
O cacau cabruca é um sistema tradicional do sul da Bahia, no qual o fruto é plantado sob a sombra da mata nativa. Isso mantém o microclima úmido e fresco, ideal para o cacaueiro, além de favorecer a conservação ambiental e a biodiversidade da Mata Atlântica. Segundo Mesquita, o avanço tecnológico e a capacitação de produtores e chocolatiers também têm impulsionado o desenvolvimento de chocolates de alta qualidade no formato “bean to bar” — do grão à barra. “Hoje, o chocolate baiano não é apenas um produto de sabor refinado, mas também um símbolo de inovação agroindustrial e valorização territorial”, destaca.
Um dos produtores que aplicam essa filosofia de acompanhar todas as etapas da cadeia produtiva é Lucas Arléo, da Ju Arléo Chocolates. “Na fábrica, colocamos muito amor e dedicação para oferecer sempre uma experiência sensorial incrível”, afirma. A marca já acumula premiações nacionais e internacionais. Só neste ano, o chocolate 55% ao leite com café levou o bronze na Internacional Chocolate Awards Américas e o chocolate de doce de leite crocante ficou com a prata na Academy of Chocolate. A DengoChocolates é outro exemplo de sucesso no formato “bean to bar”. Para a gerente executiva de redes da marca, Andresa Silva, a excelência dos produtos é explicada pela qualidade do cacau fino produzido na Bahia e pela forma como todo o processo é acompanhado, “da amêndoa ao chocolate final”. Ela também reforça a importância do Terroir baiano. “O clima, o solo e as práticas sustentáveis dos nossos parceiros produtores conferem notas únicas de sabor e aroma, que se refletem em chocolates mais intensos, aromáticos e naturalmente menos doces”, afirmou.
É que, assim como o vinho, o chocolate reflete o Terroir de onde vem. Para Arléos, o sistema cabruca traz um Terroir único para a região. E tanto Lucas Arléos quanto Paulo Mesquita reconhecem a importância da Mata Atlântica nesse sentido. “A combinação entre clima tropical úmido, solos ricos em matéria orgânica e o cultivo sob sombra em sistemas agroflorestais, como o cacau cabruca, cria condições ideais para o desenvolvimento de amêndoas aromáticas e equilibradas”, detalhou Mesquita.
O Brasil tem, ainda, enorme potencial de crescimento na cacauicultura, o que representa uma oportunidade em um momento de crise global na produção do fruto. Mais de 60% do cacau mundial vem de quatro países da África Ocidental: Costa do Marfim, Gana, Nigéria e Camarões, onde o aquecimento global, as doenças e a falta de incentivo aos produtores têm comprometido as safras. Claro que a produção baiana não está livre dos desafios. O aumento das temperaturas e a irregularidade das chuvas afetam a floração, a frutificação e a qualidade das amêndoas, além de favorecer pragas e doenças.
“Essas mudanças exigem adaptação tecnológica e manejo sustentável, com o uso de variedades mais resistentes ao estresse hídrico e térmico, implantação de sistemas agroflorestais que mantenham a umidade e reduzam a temperatura do solo, e investimentos em pesquisa, irrigação e sombreamento estratégico”, observou Mesquita. “O desafio é grande, mas também é uma oportunidade. Com ciência, inovação e políticas públicas adequadas, o Brasil pode se consolidar como referência em cacau sustentável e de origem climática responsável”, finalizou.
A Dengo Chocolates é uma das marcas que já caminha nesse sentido. A “Créditos para a Terra” é um projeto que une renda sustentável e conservação da Mata Atlântica, remunerando agricultores pelos serviços ambientais que seus sistemas agroflorestais geram. “A iniciativa transforma desafios históricos da cadeia em oportunidades, criando valor ambiental e econômico para toda a região produtora e estabelecendo um novo padrão de negócios de impacto positivo”, explicou Andresa Silva. O case recebeu o Sustainable Business Award 2025 — Reconhecimento internacional concedido durante a COP30, em Belém do Pará, no dia 12 de novembro.
Existem dificuldades, mas, ao que tudo indica, com o talento e a dedicação dos produtores baianos, o futuro do chocolate brasileiro será ainda mais doce.